A NUDEZ QUE PERPASSA AS ROUPAS: O VESTIR QUE CAUSA DESCONFORTO.
Podcast “Fashion Neurosis” de Bella Freud. Foto: YouTube.
No seu mais novo episódio, o podcast “Fashion Neurosis”, comandado pela Bella Freud, estilista e
bisneta do fundador da psicanálise Sigmund Freud, recebeu a atriz inglesa Helena Bonham Carter, que,
durante o episódio, falou acerca de diversos assuntos, desde o seu divórcio com o famoso cineasta Tim
Burton até as críticas que recebe pela sua forma de vestir-se.
Sobre esse último tópico, Carter comentou que o estilo funciona como um “internal weather” (clima
interno), revelando como a pessoa se sente, o que pensa e como age, mesmo que ela não tenha
consciência desses atos.
Por exemplo: as cores revelam o estado emocional de quem as veste, e a moda funciona como uma
linguagem também emocional. Sendo assim, cada cor usada, se utilizarmos uma interpretação
simbólico-cultural, revela algo sobre a pessoa (lembrando que não há uma comprovação científica
desse fato).
Outro ponto mencionado foi a questão da nudez: Freud perguntara a Carter se ela mesma vestida
sentia-se nua, e isso chamara-me muito a atenção. Por diversas vezes vestimos uma roupa que nos
cai bem, mas, ao sairmos, ela fica, automaticamente, estranha: grande demais, decotada demais,
mostrando demais. A forma como isso acontece me é interessante, pois, quando sozinhos, pensando em
nós mesmos, nos sentimos bem, mas, ao nos colocarmos no espaço do outro, ou seja, em um lugar com
outras pessoas além de nós mesmos, começamos a ter pensamentos negativos sobre o que e como
usamos, se estamos de acordo com as regras sociais daquele local, se as pessoas veem demais e o que
vão falar sobre depois.
Basta que pensemos nos outros para que nossas roupas tornem-se desconfortáveis.
Roupas funcionam como um reflexo direto da nossa confiança e dos locais onde estamos inseridos;
há quem pense, inclusive, que elas revelam nossas posições políticas, nível de escolaridade e profissões.
Ao ouvir essa pergunta, pensei imediatamente em todas as roupas que deixei de usar, pois os outros
veriam um pouco mais do meu corpo, ou em todas as vezes que vi alguém usando algo que eu jamais
conseguiria, confiantemente, ou em todas as vezes que usei algo, mas fiquei envergonhada e tentei
encobrir aquilo que a roupa revelava, olhando ao redor para ver se alguém me encarava, que abaixei ou
subi algo, mas que, ao vestir pela primeira vez, senti-me extremamente feliz e confiante.
Deixamos que o outro, que tem suas próprias crenças e análises, nos molde, nos diga o que nos faz bem,
o que nos veste bem e que deveria nos fazer confortáveis, simplesmente por dependermos
excessivamente de aprovação, e esquecemo-nos de que somos nós quem devemos julgar isso, pois
também somos os outros dos outros.
A grande questão é: será isso, essa insegurança, algo do nosso clima interno, ou fruto das construções
sociais? Nós, especialmente as mulheres, sempre fomos ensinadas a não mostrar nossos corpos e nos
sentirmos mal ao fazê-lo, então estariam aqui remanescências de padrões velhos e enferrujados, ou será
mesmo questão de gosto (esse que é moldado também pela sociedade)?
Essa questão não é algo geral, e sim diferenciado de pessoa para pessoa. É engraçado como os gostos
não são iguais, mas os padrões sim. Então, ao final do dia, sempre nos depararemos com alguma
situação igual à minha: comprar algo, gostar, mas querer jogar no lixo no instante em que pisa na rua,
pois tem medo de os outros olharem.
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