“MULHERZINHAS”: A FEMINILIDADE, O DIREITO FEMININO E O SUPEREGO.
A esquerda a autora da obra Louisa May Alcott, e à direita a obra com seu título original “Little Women”.
“-- Tenho as chaves para o meu castelo de areia, mas se conseguirei abrir as portas já é outra questão.”
(página 161).
“Mulherzinhas” beira a infantilidade.
Criada por Louisa May Alcott, escritora estadunidense, e publicada em 1868, há quase duzentos anos atrás,essa
obra traz como protagonistas as quatro irmãs March: Meg, Jo, Beth e Amy, as quais passarão um Natal solitário
sem o pai, que fora convocado para servir na Guerra de Secessão que ocorreu nos Estados Unidos entre 1861 e
1865. Esse livro teria começado a dar os primeiros passos para o que hoje chamamos de Jovem-Adulto, mas seus
personagens são majoritariamente infantis, com comportamentos problemáticos e atitudes estúpidas.
Ao longo da trama, Louisa nos mostra cenas de personagens fortes e decididas, que não ousam ficar tristes pois
existe alguém em situação pior, cortam o cabelo para garantir dinheiro ao pai, e até mesmo ficam gravemente
doentes para ajudar os outros. Elas estão sempre se doando para o próximo e se moldando para serem pessoas
melhores, algo incrivelmente nobre e humano, mas da forma como foi escrito é extremamente infantil e banal.
Como falado na primeira linha deste artigo, essa obra é extremamente infantil, e por conter um excessivo teor de
moralidade, se torna enfadonho e cansativo.
Poster da adaptação cinematográfica de 2019 que traz os personagens principais.
Em sua época de escrita e publicação, às mulheres era reservado o dever de serem calmas, discretas, delicadas…
Ou seja, terem um comportamento exemplar, tão exemplar que é impossível de ser seguido; já aos homens, bem,
eles poderiam fazer o que quisessem e, desde que tivessem dinheiro, suas honras jamais seriam maculadas, algo
que fica bem claro no decorrer da narrativa com o personagem Laurie.
Ele é extremamente imaturo e age de forma muito infantil para a sua idade. Embora haja um “fundo triste”
que tente explicar o porquê do seu comportamento, isso não muda o fato de ele ser irresponsável e não querer
responder por seus atos. Como ótimo exemplo, podemos citar a “brincadeira” que ele faz com Meg e John
Brooke, na qual ele escreve cartas que não existem se passando por este último. Na história, ao ser confrontado,
ele não entende o peso do que faz, já a Meg resta apenas perdoá-lo como uma ótima dama deve fazer, e embora
sua atitude seja tida como positiva, tendo em vista que depois os personagens noivam, o que realmente cabe
analisar é que ele não fora punido, suas desculpas foram rasas e sem sentimentos, e ela o perdoou, mesmo ainda
estando machucada. Isso evidencia a forma vigente de comportamento da época que Louisa, mesmo sendo uma
declarada sufragista, viveu e transmitiu: as mulheres devem ser um exemplo de comportamento, o direito de
errar, e o privilégio de uma não punição só é reservado aos homens.
A família March já fora rica, fato sempre reforçado durante a narrativa especialmente por Meg, que sonha com
bailes, vestidos de seda, joias, férias fora da cidade… E também pela tia da família, que sempre é colocada como
alguém “ranzinza”, mas que na verdade é apenas um lembrete do que eles já foram e nunca mais voltarão a ser. É
a partir dessa situação que surge algo que também se mistura ao amoldamento feminino perfeito - e impossível -:
os sentimentos.
Meg e Jo são as melhores exposições disso: Jo tem problemas com a raiva e sua irmã mais velha com a falta de
dinheiro, mas o ponto chave que elas têm em comum é o fato de não poderem expressar isso. Quem lê o texto
percebe que há um certo medo por parte da mãe em relação à exposição desses sentimentos, como pode-se em:
"[...] a vaidade estraga as melhores personalidades [...]" (página 81). Meg, em determinado momento, passa uma
temporada com uma família rica, e lá ela vê tudo o que gostaria de ser mas não poderia. Nessa ocasião, ela sente
inveja e até mesmo raiva de sua vida, mas depois se auto repreende com a desculpa de que “mamãe não iria
gostar disso”; já no caso de Jo, controlada por sua raiva excessiva, ela quase faz Amy morrer e fica com medo de
si mesma, mas há algo que deve ser analisado: Amy havia queimado seu livro, então sua raiva é justificável.
Existe um ditado que diz “sua raiva é justificável, seu grito não ” e isso se aplica a ela. Deixar sua irmã cair no
gelo, sabendo que ela poderia morrer é injustificável, mas sua vontade de querer que ela se machuque e sofra
assim como ela a fez sofrer é compreensível. Isso pode ser ilustrado pelo princípio básico de Newton: toda ação
gera uma reação. Toda atitude ruim gera uma reação ruim, por isso sua vontade de machucar é justificável, mas
na obra, que tem fortes valores cristãos doutrinadores, isso é imperdoável. Tanto Meg quanto Jo são privadas do
direito de sentirem algo dito ruim e se auto repreendem por isso.
"[...] Ela nutriu sua raiva até que esta se fortaleceu a ponto de dominá-la, pois é isso que acontece com
pensamentos e sentimentos ruins, a menos que sejam eliminados de uma só vez [...]" (página 88).
A forma moral como a autora conduz tudo, as meninas devem sempre perdoar, controlar seus sentimentos e
esquecer, é extremamente irritante e contraditória com sua própria postura. Como ja mencionado, ela era uma
feminista declarada e inclusive escreveu vários textos sobre o tema de forma anônima. Porém, cedendo à pressão
dos editores, fez diversas “adaptações” do texto dessa obra para que ele se encaixasse nos padrões da época.
Talvez Laurie seja uma delas, ou ele talvez seja apenas um reflexo do tempo da autora em sua obra. Mas com
toda certeza Jo fora mudada, para não tentar mudar sua época.
Estamos nos anos de 1800, época em que o patriarcado vivia seu auge, causa que culminou no surgimento do
movimento de luta pela voz feminina: o sufrágio (atualmente conhecido como feminismo), e podemos notar isso
na forma como a história é construída e em especial na personagem Jo, que inicialmente tinha um “jeito de
moleque” que irritava sua irmã, fazia sua mãe a repreender e forçava seu pai a achar que ela não tinha solução,
mas esse jeito não está presente nas roupas e sim nos modos, já que ela não era tida como uma moça vaidosa, e
nos pensamentos dela, especialmente por ela não querer casar-se. Louisa dizia que Jo era a sua representação na
história, uma espécie de alter ego, que perpetuava suas crenças e valores.
Bem, se há um alter ego, é certo de que também há um superego. Esse conceito foi introduzido por Freud, pai da
psicanálise, e segundo ele, essa seria a parte da personalidade que internaliza os valores, normas e regras morais da
sociedade e dos pais, sendo criado a partir das exigências e proibições dos mesmos, especialmente da mãe, que é
quem acompanha o bebê desde sua fecundação, abrigando-o em seu próprio corpo, e cuidando dele até o dia da
sua morte. Essa parte da nossa personalidade cria um ideal perfeito de nós mesmos, uma imagem de excelência
que sempre almejamos alcançar, além de criticar e avaliar nossas ações, gerando a culpa e o orgulho, o que pode
levar à ansiedade, culpa excessiva e até aos transtornos de personalidade.
Esquema proposto por Freud sobre a mente humana, onde o ID seria a parte ruim que é reprimida, o EGO a verdadeira personalidade do sujeito em sua realidade, e o SUPEREGO a moral e virtude desejados.
O superego de “mulherzinhas” poderia facilmente ser a mãe delas. Ela sempre está pelas sombras da narrativa,
funcionando como uma ferramenta de opressão e repressão que avalia as filhas e as guia em direção a uma
bondade utópica. Mas ela não o faz pelas suas ações em si, e sim pela imposição de sua própria imagem: “o que
mamãe diria?”, “mamãe não vai gostar”, “céus, mamãe…”; esses são alguns dos exemplos em que sua imagem é
mencionada.
Pessoa de bondade pura até um segundo cenário, ela representa os valores da época, ilustra o que uma dama deve
fazer e como agir, sempre pensando no próximo e deixando a si de lado, o que é ridículo. Sempre devemos pensar
em nós primeiro, mas sem ferir a ninguém. Ela é um lembrete de que suas filhas sempre devem ser boas, quando
nem ela mesma é. A imagem perfeitamente plastificada e sem sentimentos, é irreal. A raiva, o ciúme, a inveja, o
grito, a dor, todos esses são sentimentos e ações inerentes a qualquer ser humano, não é sua presença constante
que assusta, e sim a sua ausência, como disse Freud “somos feitos de carne, mas temos que viver como se
fôssemos de ferro”.
Ótimos exemplos disso são Meg, a mais velha que convive há mais tempo com ela, e Beth, que estuda em casa,
portanto passa mais tempo ao seu lado. Em verdade, ela é a sua cópia fiel, o que pode ser explicado pela
psicanálise: a relação criança-mãe que constitui a personalidade defende que quanto mais tempo passado ao seu
lado, mais parecida com a figura a criança será. Já Jo é mais ligada ao pai, talvez por isso se distancie dos ideais
de dama perfeita da sociedade que sua mãe transmite.
Ou talvez isso seja mais um reflexo da vida da autora, que era extremamente ligada ao seu pai e o tinha como um
grande exemplo. Este era educador e, em vez de punir seus alunos, como era comum na época, ele preferia
conversar com eles.
Amos Bronson Alcott, pai da autora.
Ainda citando a psicanálise, Callegares diz que a família já fora vista como “o berço da loucura”, servindo de um
instrumento de domínio que subjuga as crianças de acordo com as normas vigentes. Isso se dá pois os recém-
-nascidos estabelecem uma relação de dependência com as suas mães, sendo elas, segundo Freud, seus primeiros
amores, seguindo os princípios do complexo de Édipo (relação essa que constrói a personalidade da criança.) Os
laços maternos, esses, por sua vez, criados através de fatores internos e externos, sempre influenciam a criação:
“A relação mãe-bebê, principalmente fundada no primeiro ano de vida, estabelece desde muito cedo o ‘modelo
básico’ de como a criança se relacionará consigo e com os outros, tendo esse relacionamento como parâmetro”
(Klein, 1982). Esse relacionamento não mudará muito até e na vida adulta da criança.
Como já falado, Beth é a melhor exemplificação disso. Ela chega até a contrair uma grave doença para ajudar um
bebezinho que morre em seus braços. Já Jo, age como o pai por ter, provavelmente, passado mais tempo ao seu
lado e ganha uma masculinização, graças às suas influências.
Mas de fato todas são extremamente influenciadas pela mãe que. Ela reflete os ideais e valores da época,
mesmo a própria também sendo relutante a segui-los. Em determinada cena, ela conta a Jo que também tem
sentimentos e ideias que ela considera ruins, mas que para se controlar, o pai dela costuma pôr o dedo em seus
lábios, ou seja, ele faz ela se calar e o sentimento é guardado dentro dela.
Essa represália de sentimentos, esse lembrete constante que devemos ser bons, esse apelo extremamente excessiva
para as religiões, sem deixar espaço para outras, como por exemplo acontece quando a personagem Esther aparece
e fala ser cristã mas isso não é aprofundado, e a menção a bíblia através do livro do peregrino, dão a sensação de
que os personagens são todos crianças de cinco anos. Amy, tem 12 anos, mas parece ter três tanto pela sua forma
de falar quanto pelos seus pensamentos. A obra toda parece ter sido escrita por uma criança de cinco anos para
alguém de cinco anos. O tom moralista que tenta ensinar algo não funciona e irrita; a privação de sentimentos e
criação de personagens perfeitas criam uma grande distância com o leitor.
Há alguns traços feministas na obra, mas Alcott os perde graças a sua narrativa enfadonha e infantil, tal qual uma
criança que está aprendendo a falar “mamãe”. Jo, sua personificação na obra, deixa a desejar, especialmente na sua
tentativa de ser boa e agir bem. Invés de procurar a raiz do problema e resolver, Alcott apenas joga a água benta,
que a deixou bêbada a noite toda, no manuscrito, enquanto escreve aquelas linhas. A religião não é a resposta de
tudo, e sim um consolo para problemas temporários os quais não aceitamos sua natureza ou não pensamos muito
sobre, mas essa visão não está presente em seu século.
Outras obras que não se rebaixaram a opiniões de editores, que denunciaram as épocas em que viviam, e que
realmente mereciam marcar a história, se perderam no tempo, enquanto esse ensaio malsucedido de sufrágio e
maravilhoso expoente do patriarcado, ficou, o que mostra que o que fica na história nem sempre é o livro que
critica, que mexe com a época, que quebra os padrões, e sim aquele que fala o que a população quer ler, seja ele
da vontade ou não do autor. Obras como as das irmãs Brotë até hoje ressoam em nossos imaginários. Embora não
sejam do mesmo século e pais, elas não se deixaram levar pela época, criaram personagens femininas fortes que
até hoje ressoam no nosso imaginário feminista, “Jane Eyre”, “O Morro dos Ventos Uivantes” e “A Senhora de
Wildfell Hall”, não podem e sequer devem ser comparados ao universo moralmente correto de Alcott. Mesmo
também vivendo algo parecido, elas falam da liberdade feminina, das emoções reprimidas, da dor e dos desafios
de ser mulher e da independência que Louisa escreveu em silêncio, mas a luz, “mascarou” erroneamente.
Em fato, ao ler a obra, não imagina-se, graças a grande carga de feminilidade contida, que a autora fora uma
feminista. A única coisa realmente boa da obra, são as referências bibliográficas, mas o resto, como já falado,
se enquadra na evangelização do público infantil.
Para encerrar, é importante enfatizar que a intenção do trabalho não é de todo ruim, a autora tem uma escrita leve
que prende o leitor e traz algumas boas reflexões, o problema está no excesso de moralidade e na falta de liberdade
das personagens, trazido tanto pela época quanto pelo editor, o que nos leva a imaginar como seria “Mulherzinhas”
se Louisa não tivesse cedido ao editor e época, mas essa dúvida, infelizmente, ressoará eternamente em nossa
imaginação.
REFERÊNCIAS:
ALCOTT, Louisa May. Mulherzinhas. Trad. Filipe teixeira. São Paulo:Principis, 2020.
FARIAS, Cynthia Nunes de Freitas. Lima, Glaucineia Gomes de. A relação mãe criança: esboço de um
percurso na teoria psicanalítica. PePisc: periódicos de psicologia, 2004. Disponível em:
https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-71282004000100002.
Acesso em: 20/04/2025.
MACIEL, Rubens de Aguiar. ROSEMBURG, Coronélio Pedroso. A relação mãe-bebê e a estruturação da
personalidade.. Scielo Brasil, 2006. Disponível em:
https://www.scielo.br/j/sausoc/a/5GZpvRjD4BBkFJS5qjCNfvy/#top Acesso em: 20/04/2025.
SODRÉ, Mia. "Mulherzinhas: a importância da mulher comum na literatura."; Delirium Nerd. Disponível em:
https://deliriumnerd.com/2020/01/21/mulherzinhas-resenha-louisa-may-alcott/. Acesso em: 20/04/2025.
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